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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Língua de Trapo - Capítulo 6 - Minha Saída em 1981... - Por Luiz Domingues



Por que quis sair ? Eu não gostaria de ter saído, essa é que é a verdade. Eu gostava muito de fazer parte da banda, e tinha o sentimento de que apesar de não ter essa mesma criatividade e verve humorística, eu era ao lado do Laert a mais remota semente da banda, plantada em 1976, no "Céu da Boca / Boca do Céu / Bourréebach". Mas estava passando por sérios problemas pessoais, devido às pressões familiares que impeliam-me a ter que autoafirmar-me como músico, e nesse sentido, desde 1979, simultâneo ao Língua de Trapo, fazia vários trabalhos paralelos, na música.

Laert Sarrumor, um grande dínamo na história do Língua de Trapo


Desde o final de 1979, eu vinha desenvolvendo trabalhos paralelos ao Língua, pois precisava ganhar dinheiro. E entre tantas coisas, o mais duradouro foi uma banda de covers chamada "Terra no Asfalto". Essa banda surgiu em dezembro de 1979, e durou até junho de 1980 (em sua primeira fase), mais ou menos. Mas no final de novembro, surgiu a ideia de reformulá-la, e diante dessa perspectiva de trabalho fixo em bares, tive que optar por sair do Língua, pois haveria um choque de agendas. Fui para o "Terra no Asfalto", que durou até junho de 1982. Tem muitas histórias do "Terra no Asfalto", nos capítulos específicos sobre esse trabalho.

Eu havia tido uma briga feia com meu pai, por querer ser músico profissional. Precisava ganhar dinheiro, e assim, não dava para continuar no Língua, que estava crescendo, mas ainda não proporcionava renda. Fiquei muito chateado, lógico. Dividido, pois sempre odiei tocar covers. Não tinha cabimento no meu entendimento deixar uma banda de som autoral para ir tocar numa banda de covers, nos bares da noite. Se o fiz, foi por extrema necessidade. Analisando hoje, o conceito não muda, pois a realidade daquele momento exigiu essa postura. Não tenho como arrepender-me, pois eu não era vidente para supor que já no meio de 1981, o Língua sairia desse estado inicial de quase amadorismo, para tornar-se uma banda com empresário; mídia, e agenda lotada. Observei o sucesso meteórico deles, com dor no coração, sentindo-me um “Pete Best”, mas torcendo pelos meus amigos, sem nutrir nada negativo, primeiro porque sou espiritualista, e diante dessa forma de pensar, inveja não tem cabimento, é fora de cogitação, e segundo, porque eles não queriam que eu saísse. Foi decisão minha.

Guca Domenico, outro compositor fundamental na estrutura de criação do Língua de Trapo


Foi duro comunicar a eles... fiquei adiando por dias, criando coragem. Mesmo porque era uma autoimolação, quase um Haraquiri. O Laert ficou muito chateado, claro. De todos os membros, era com quem eu tinha a mais velha ligação artística. Estávamos lutando juntos desde 1976, e era como se estivesse abandonando aquela luta. Por quantas adversidades tínhamos passado juntos desde 1976 ? Foi duro para ele e isso só aumentava o meu pesar. Claro que ele (Laert), tentou demover-me de minha decisão. O chato, era que todos os seus argumentos batiam exatamente com o que eu pensava também. Chegou num ponto onde não adiantava falar, só lamentar. Como já disse anteriormente, eu saí por necessidade financeira, contudo, embora gostasse e acreditasse que o trabalho vingaria, estava sob pressão familiar, e urgia ganhar dinheiro.


Se foi amistoso ? Sim, mas claro que nenhuma separação, por mais amistosa que seja, é agradável. E ficou acertado que eu faria mais uma apresentação com a banda. Não era um show, por isso eu considero aquele show no bar 790 em novembro de 1980, como último, nesse formato. Mas a última subida ao palco, foi defendendo duas músicas num festival Universitário, em janeiro de 1981. O palco foi nobre, o Palácio das Convenções do Anhembi, onde grandes artistas apresentavam-se regularmente. Era o fim dessa minha primeira etapa com o Língua de Trapo, pois a história continuou depois, com a minha volta, em outubro de 1983 e aí, tenho inúmeras histórias, com o Língua numa situação completamente diferente, e frenética.

O clima foi chato, claro. Nesse momento eu estava já atuando novamente com a banda cover, "Terra no Asfalto". Participar do festival, foi um melancólico final que deixou-me mal, mas fazer o que, não é ? E assim, no dia 19 de janeiro de 1981, subi no palco do Palácio das Convenções do Anhembi, um palco histórico e chic da cidade, por sinal (Alice Cooper; Elis Regina; Festival Phono 73; Doces Bárbaros; Festival de Jazz de 1978 e 1980...). Defendemos as músicas "Tragédia Gramatical" e "Circular 46", com o Língua e alguns músicos convidados. A formação do Língua nessa noite, foi :



Laert Sarrumor - Vocal

Pituco Freitas -Vocal

Lizoel Costa - Violão

Guca Domenico - Cavaquinho

Carlos Melo - Vocal e imitações

Fernando Marconi - Pandeiro

Celso Mojola - Teclados

Como músicos convidados, estavam conosco:

Armando Tibério - Bateria

Gilles - Clarinete

André - Flauta Transversal


Lembro-me que não havia muito público, apesar de ser um festival badalado, e realizado num teatro nobre. Os Shows do Festival foram realizados pelo “Made in Brazil”, e a cantora “Silvinha”, ex-Jovem Guarda. Assisti a ambos da coxia do teatro. O da Silvinha foi incrível, pois sua voz era de arrepiar. Cantou uma versão soul de “Lady Madonna” dos Beatles, onde deu um show de malabarismo vocal.

E assim, toquei e despedi-me do Língua de Trapo. A música "Tragédia Gramatical" foi classificada, mas aí o Ayrton Mugnaini Jr. assumiu o posto interinamente, e participou da final do festival, pois uma grande reformulação na banda aconteceu após a minha saída.

Continua...

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