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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Língua de Trapo - Capítulo 19 - Pé na Estrada... - Por Luiz Domingues


Antes de seguirmos para o interior, tivemos uma data no ABC, especificamente na cidade de Diadema. Foi um show marcado para o teatro Clara Nunes, no centro daquela cidade do ABC paulista.

Tinha tudo para ser um ótimo show, pois tratava-se de um teatro novo em folha, equipamento cultural da prefeitura de Diadema, com pouco tempo de vida. A estrutura física era muito boa, assim como a iluminação, mas o P.A. fora alugado pelo produtor local. Até aí, tudo bem, pois era uma praxe para nós. Contudo, infelizmente, o P.A. que o rapaz alugou era de qualidade inferior ao que estávamos acostumados. Logo que chegamos ao teatro, e vimos o equipamento, já percebemos que teríamos problemas. No soundcheck, chegamos a conclusão que o show seria um desastre, com tantas coisas erradas e que na somatória de tudo, tornaria o show, uma tortura para nós, e pior ainda, para o público. E no caso do Língua do Trapo, onde a equalização precisa garantir a inteligibilidade das letras, para fazer sentido o teor das piadas, apresentar-se nessas condições insatisfatórias, seria uma irresponsabilidade para com a plateia pagante. Então, reunimo-nos com o empresário Jerome Vonk, e comunicamos-lhe que preferíamos cancelar o show. Lógico, tal decisão causou um rebuliço. O próprio Jerome quis ter a nossa absoluta certeza de que tecnicamente era inviável realizar o espetáculo. Ele precisava desse elemento para comunicar ao promotor do show e dar uma satisfação ao público que já começava a aglomerar-se na porta do teatro. Claro que o rapaz apavorou-se com essa perspectiva e não foi fácil convencê-lo de que realmente o equipamento que ele contratara era de qualidade inferior, e inviabilizava o show. Nesse ínterim, sua preocupação era dar satisfação ao público e ao dono do equipamento que ofendeu-se com a nossa recusa numa primeira instância e em seguida, exigia o pagamento acordado, independente do show realizar-se ou não. O tempo foi passando e as discussões acaloraram-se. O promotor era um rapaz sensato e não indispôs-se conosco, mas o clima azedou com o dono do equipamento, enquanto a aglomeração na porta do teatro aumentava a cada minuto, gerando tensão.



Com a demora para abrir as portas e sem saber o que ocorria, o público começou a revoltar-se, também. Então, quando estava insustentável o clima, o promotor foi à porta e tentou explicar o problema, anunciando o cancelamento do show.

O povo revoltou-se ainda mais e na base da força, quis invadir o teatro. Nessa hora, basta uma pessoa incitar e a massa obedece sem racionalizar, é fato. Portanto, com muito custo e alguns safanões, fora os xingamentos e ameaças, o rapaz conseguiu entrar e fechar as portas, preservando sua integridade física. Contudo, o público começou a forçar a porta e aos gritos, ameaçar também a banda. Nessa altura, o Jerome viu que a situação ficou muito assustadora e correu até nós, pedindo-nos que trancássemo-nos no camarim e estivéssemos preparados para defendermo-nos em caso de invasão e ameaça de agressão. Chamaram a polícia, até que enfim, mas do camarim, ouvíamos os gritos e confesso, foi bastante tensa a situação. Por incrível que pareça, após momentos tenebrosos de tensão, acalmados os ânimos, o promotor desse show selou acordo de adiamento do espetáculo, para dali a dois meses, e uma comunicação foi dada às pessoas, para guardarem seus ingressos para essa ocasião futura. Incrível como os ânimos acirrados e sobretudo o fato de alguém insuflar a massa, faz com que pessoas pacatas percam a cabeça. Eram as mesmas pessoas de bem que só queriam divertir-se e assistiriam prazerosamente o show.
E cerca de cinquenta dias depois, foram as mesmas que assistiram o show adiado, riram, aplaudiram e admiraram o trabalho da banda...
Uma incursão pelo interior, prenunciando uma nova fase da turnê, iniciou-se quando em 4 de maio de 1984, apresentamo-nos no bonito Teatro Municipal de Piracicaba, com um bom público de mais de trezentas pessoas. Nesse show, recordo-me de um contingente significativo de Rockers na plateia, pois fui abordado nos bastidores do pós-show com muitos pedidos de autógrafos de pessoas falando-me da Chave do Sol.
Os próximos shows seriam no interior de São Paulo, num clima de micro tour, de três datas seguidas. O primeiro, na cidade de Votuporanga, distante mais de 500 KM de São Paulo. Lembro-me que viajamos na véspera, durante a madrugada, e várias vezes o Jerome teve que chamar a nossa atenção dentro do ônibus, pois era uma linha comercial, e incomodávamos os demais passageiros com nossa, digamos, "expansão desmesurada", durante a viagem, e convenhamos, era em plena madrugada. Chegando a Voturopanga ainda antes do amanhecer, fomos direto ao hotel, e dormimos, enfim.

A programação nesse dia era bastante flexível, e só havia mesmo o compromisso de fazer o soundcheck no período da tarde, e apenas alguns "Línguas" iriam participar de uma entrevista na estação de Rádio, local. Seria um festival realizado num estádio de futebol, com vários artistas locais e da região, e o Língua de Trapo como Headliner da noite. Sinceramente, não lembro-me de ninguém que tenha ficado famoso posteriormente, e infelizmente não anotei o nome de tais artistas.

Lembro-me que teve um público de aproximadamente 1000 pessoas, ou seja, foi muito fraco para um estádio de futebol. Muito melhor seria ter sido realizado num teatro, ou salão fechado, e de porte bem menor. Daí, 1000 pessoas cairiam muito bem, mas num estádio, parecia um amontoado tímido em frente do palco e gatos pingados pelas arquibancadas. Independente disso, fomos bem tratados e o público, em sua maioria bem jovem e universitário, gostou da proposta satírica da banda, embora alguns incautos de plantão talvez achassem ser o Língua de Trapo uma banda de Rock, oriunda do movimento BR-Rock 80's, em voga na ocasião. Isso ocorreu em 11 de maio de 1984.

Nossos próximos compromissos seriam dois shows na cidade de São José do Rio Preto, distante cerca de 80 KM. dali, voltando em direção à capital de São Paulo.

Na viagem de Votuporanga a São José do Rio Preto, tive uma surpresa inesperada e foi bastante inusitada a conversa que tive com o passageiro que sentou-se no banco ao lado, fazendo com que eu sentisse-me no banco da "Praça da Alegria", onde sempre poderia ser possível uma figura estranha sentar-se e puxar uma conversa bizarra...
Foi assim : como costumávamos viajar em ônibus comercial, nem sempre dava para ficarmos agrupados e dessa forma, nesse em específico, tratava-se de uma linha que vinha parando em outras cidades, e portanto, quando chegou em Votuporanga, já tinha vários assentos tomados. 


E sendo assim, ficamos misturados aos passageiros comuns, de forma aleatória. Então, procurei pelo meu assento e sentei-me ao lado de um rapaz, que logo que viu-me, com aquele cabelão de Rock Star, perguntou-me se éramos artistas etc e tal. Mesmo porque, já havia visto toda a movimentação para embarcarmos instrumentos na rodoviária de Votuporanga, naturalmente.
Aí o sujeito falou que apreciava música, e era jogador de futebol profissional. Bem, claro que estabelecemos uma conversa agradável, pois como todos sabem, eu acompanho o futebol com bastante interesse e tenho conhecimento razoável dessa matéria.

Ele disse que estava jogando no Santa Fé do Sul, time homônimo de uma cidade daquela região, que estava na terceira ou quarta divisão estadual naquela ocasião (isso eu não lembro-me mesmo, e quem quiser saber, consulte o Google, ou o Paulo Vinicius Coelho, da Fox Sports...). E foi falando como era dura a vida de um jogador num time de tal divisão, longe dos holofotes da mídia, e do glamour da primeira divisão etc etc. Falou sobre como os estádios e gramados sobretudo, eram ruins nessa divisão, que o "pau comia", as arbitragens eram ruins, e o salário, insignificante.

 

Então, inflamando-se, contou que estava em fim de carreira, e já tinha jogado em times de primeira divisão, e também jogara em times europeus. Disse ter jogado na Portuguesa de Desportos, e em times como o Murcia e Celta de Vigo, da Espanha, além do Montpellier da França. Mas apesar de eu ter uma cultura futebolística considerável, não estava reconhecendo-o, e de fato, pairava, enquanto ele falava, uma dúvida se essa conversa não seria uma "cascata", e ele só seria um jogador de terceira ou quarta divisão, com essa história de times europeus, usando essa mera mentira para impressionar-me. Contou-me também que graças a esse status adquirido por essas passagens, estava perambulando por times interioranos de divisões inferiores, nos seus momentos finais de carreira, pois já tinha 34 anos, e não tinha mais mercado para atuar em equipes maiores. E dessa forma, sem alternativa, submetia-se a isso.

Mas, malandragem de boleiro, "enganava" deliberadamente, e sempre dava um "jeitinho" de forçar um cartão amarelo, para ser suspenso em jogos onde teria que jogar no campo adversário, e demandaria cansativas viagens, ou mesmo simular contusões, para ficar no departamento médico, evitando assim ter que jogar nesses campinhos, e apanhar de zagueiros brucutus...
Ri muito ao ouvir essas afirmações absurdas da parte dele, mas claro que essa malandragem existe até na elite do futebol, e muitos atletas fazem o mesmo nas grandes equipes, quando são apelidados como "chinelinhos" pelos torcedores que percebem a vagabundagem, nesse tipo de expediente anti-profissional.

No fim da conversa, ele parece ter ficado meio frustrado, mas eu realmente não lembrava-me dele espontaneamente, mas aí ele descreveu a época onde jogou na Portuguesa, nos anos setenta, e que chamava-se Edu. Não fora famoso como seus contemporâneos Enéias; Marinho Peres; Basílio; Dicá; Badeco; Tata, e Wilsinho, mas realmente esteve naquela equipe da Lusa, do meio dos anos setenta. Foi essa a minha companhia de viagem de Votuporanga para Rio Preto, no dia 12 de maio de 1984.

Chegando a São José do Rio Preto, hospedamo-nos num hotel no centro, próximo à Av. Voluntários de São Paulo, tradicional via daquela cidade. Bem maior e mais estruturada que Votuporanga, tinha / tem ares de cidade grande, e a perspectiva de dois shows animados, era grande. O show aconteceu no ginásio de esportes Antonio Natalone, mas não recordo-me se tal instalação pertencia a prefeitura, governo do estado, ou mesmo fosse particular.

Foi nessa quadra de esportes, que o show realizou-se em Rio Preto

Lembro-me apenas que tivemos alguns problemas com o equipamento alugado para o evento, exatamente como havíamos tido dias antes em Diadema, no ABC paulista. Contudo, Diadema é uma cidade vizinha de São Paulo, e visto que São José do Rio Preto ficava a 450 KM de São Paulo, pensar em cancelar, como havíamos feito em Diadema, era bem mais complicado.

Dessa forma, a solução foi buscar improvisar com o apoio local, e assim, de última hora, surgiram amplificadores de músicos da cidade, para suprir nossas necessidades mais prementes, ainda que em termos de P.A., a estrutura era fraca, mas nesse caso, nada poderia ser feito para melhorar as condições. O primeiro show foi muito bom, e levou cerca de 1000 pessoas ao local. Apesar de não ter a estrutura de um teatro, e isso era importante para a mise en scené da banda, o público reagiu bem, rindo muito, como de costume, nas apresentações normais feitas em teatro. No dia seguinte, lembro-me de estarmos muito cansados pela maratona dos três dias, incluso cansativas viagens em ônibus comerciais.

Ficamos no hotel, até o último momento de ir ao local do show, numa preguiça muito grande, e assistindo a semifinal do campeonato brasileiro de 1984 : Corinthians 0 x 2 Fluminense, direto do Morumbi, em São Paulo. O segundo show foi bacana também, e levou cerca de 700 pessoas ao clube, considerado muito bom pelo contratante, por ser realizado num domingo. Voltamos para São Paulo no início da madrugada, e desta feita, dormindo no percurso, todos extenuados pelo final de semana intenso, e dessa forma, não incomodando ninguém, como na ida...
Os shows em São José do Rio Preto, ocorreram nos dias 12 e 13 de maio de 1984.



Passada essa aventura interiorana, os próximos compromissos seriam por São Paulo e arredores, mesmo. Em 18 de maio de 1984, fomos à FEI, de São Bernardo do Campo, uma tradicional faculdade de engenharia, que alimenta as grandes fábricas automotivas daquela cidade, com profissionais, todos os anos.

Era um show avulso e resgatando a origem primordial da banda, ou seja, a de apresentar-se para um público universitário em seu ambiente.

Foi um show realizado no ginásio de esportes da instituição, e o público universitário gostou muito. Minha lembrança, inclusive, é que fugindo das características normais do Língua de Trapo, o show ganhou ares de show de Rock, com momentos de euforia por parte do público, o que chegou a espantar-nos. Cerca de 1200 pessoas assistiram-nos, e o show ocorreu no entardecer, fugindo um pouco do horário tradicional de teatros, em que estávamos acostumados.
E no dia seguinte, fizemos um show no Clube Ipê, aqui em São Paulo, mesmo.

O Clube Ipê, para quem não conhece São Paulo, é um clube tradicional, instalado próximo ao Parque do Ibirapuera, e com um bom parque próprio; com quadras; piscinas, e instalações sociais muito bem cuidadas. Era também um show atípico para nós, pois geralmente shows realizados em área social de clubes poliesportivos, são realizados em cidades interioranas de pequeno porte, onde não existem teatros, ou casas de shows bem estruturadas.

E, nesse caso em específico, foi engraçado fazer o show, pois ele ocorreu antes de um baile. Portanto, tocamos utilizando o equipamento de uma banda de bailes, e tal prática lembrou-me o padrão muito comum nos clubes paulistanos entre os anos cinquenta e sessenta, com artistas de trabalho autoral fazendo apresentações pocket, para depois bandas de baile entreterem o público de tais clubes, isto é, os associados. E de certa forma, o público presente foi surpreendente, pois cerca de 300 pessoas estiveram ali assistindo-nos e em sua maioria, eram jovens e muitos, fãs do Língua de Trapo, pelas suas reações durante o show.
E tal espanto justificava-se pelo fato de que, em plena Era das danceterias, esperávamos poucos jovens ali presentes, num sábado a noite. Era o dia 19 de maio de 1984, e assim foi nossa apresentação no Clube Ipê, de São Paulo.



Alguns dias depois, voltaríamos a fazer o show nos moldes a que estávamos mais habituados. Fomos à cidade de Campinas, e apresentamo-nos no Centro de Convivência daquela gigante cidade interiorana. Tratava-se de um belo e amplo centro cultural, muito bem localizado, no bonito bairro do Cambuí, centro de Campinas.
O palco era muito grande, e as condições cenotécnicas, excelentes, portanto, ideais para o show completo, com todos os recursos teatrais disponíveis para nós.

Lembro-me que os shows foram ótimos, com grande presença de público e sobretudo, com sucesso, pois fomos muito aplaudidos, após duas horas de risadas frenéticas, da parte das pessoas.

Nesse teatro, costumava apresentar-se e ensaiar, a orquestra sinfônica da cidade, e alguns camarins ficavam trancados, com os instrumentos dos músicos, guardados. O primeiro show ocorreu no dia 23 de maio de 1984, com a presença de 600 pessoas, aproximadamente. E no segundo dia (24 de maio de 1984), cerca de 800 pessoas passaram pela bilheteria.

Após o término desse segundo show, eu deveria ter voltado com a banda para São Paulo, mas empolguei-me em ficar por conta de uma companhia feminina que surgiu. Combinamos de sair no pós show, e ela sugeriu que fôssemos à casa de um casal amigo dela, onde tais pessoas mostraram-se bacanas, e dispostas a proporcionar-nos uma noite de música, ouvindo vinis, proseando e oferecendo um espaço privativo, a posteriori...
Mas o clima não aconteceu, e após várias negativas da parte da menina, convenci-me que ficaríamos só no convívio social amigável, e nada mais.

Até aí, tudo bem, pois o ambiente da casa era agradável na sala de estar, com a sessão de vinis sendo o fundo sonoro. Mas num dado momento, o namorado da outra moça, e dono da casa, engatou uma conversa sobre Rock, e já alterado pela ingestão de vinho e cerveja, passou a insistir na tese que o Rock americano era um lixo etc e tal.
Tentei contra-argumentar citando alguns artistas de qualidade que negariam tal visão radical da parte dele, mas era nítido que estava alterado, e procurava pelo embate, quando pensei : -"estou na casa de um estranho; cercado de outras pessoas estranhas, e num bairro longe do centro de Campinas. Eram 2 ou 3 horas da manhã, e eu estava a pé, e não saberia dirigir-me à rodoviária da cidade"...
Em nenhum momento a conversa descambou para isso (o embate), mesmo porque, o casal foi extremamente simpático e hospitaleiro, mas não arrisquei cravar opinião contrária naquela circunstância...

Porém o mais maçante mesmo, foi quando o rapaz na sua empolgação em querer provar sua tese, quis mostrar-me um exemplo de um artista que despontava naquele momento...
Até então, estávamos ouvindo bons discos de MPB setentista e estava muito agradável, mas quando ele cismou com essa história, foi buscar o LP do cantor "Byafra".


Aquela canção que tocava muito nas rádios da época, e que tratava-se de uma balada açucarada e de letra piegas, aborreceu-me com bastante vigor naquela madrugada. Bem, passado esse martírio, deu para cochilar um pouco, até que por volta das 5:00 h da manhã, tomamos um café, e os três levaram-me à rodoviária.
Noite estranha, no sentido de que não corri riscos, não fui hostilizado, e pelo contrário, fui bem tratado por essas pessoas, contudo, por outro lado, primeiro frustrei-me com a garota que desistiu no momento decisivo, e depois tive que aguentar "Byafra"...
Foi assim a passagem do Língua de Trapo por Campinas, em maio de 1984.



O próximo show foi uma data avulsa no Teatro Municipal de Santo André, no ABC paulista. Era o dia 25 de maio de 1984, e 600 pessoas lotaram as dependências do bonito teatro daquela cidade da grande SP. Nenhuma ocorrência excepcional que eu lembre-me, sobre esse show, que aconteceu dentro da normalidade. Talvez valha a pena contar apenas uma piada interna ocorrida dentro da Kombi que levou-nos à Santo André. Omitirei nomes, mas deixo claro que o autor da piada, o fez mesmo com a intenção da pilhéria, portanto, até poderia revelar seu nome e o do outro elemento, que foi satirizado por ele, mas melhor não fazê-lo...

A Kombi estava lotada. Toda a comitiva do Língua de Trapo estava a bordo, mas faltava um elemento. Parada na porta de sua residência, aguardávamos sua saída quando no afã de dar-nos uma satisfação, o pai dele apareceu no portão e disse : -"ele está quase pronto, só mais um minutinho"...
O silêncio era total dentro do veículo, quando um dos "Línguas" soltou uma frase desconcertante, e que despertou uma epidemia de gargalhadas... o que ele disse foi : -"ah, então esse é o pai dele ?  Pois é o culpado de tudo... por que não masturbou-se naquela maldita noite"...?

E quando o nosso companheiro apareceu, enfim, no portão de sua casa, pedindo desculpas pelo atraso, despertou ainda mais risadas, deixando-lhe atônito... 

Uma nova investida pelo interior de São Paulo, viria a seguir. O Língua de Trapo seria atração principal de um Festival de MPB, na cidade de Paraguaçu Paulista, no oeste do estado. Era interessante pelo lado emocional, digamos, ser atração principal num festival de MPB, pois o começo da banda foi marcado por várias participações em festivais, mas como concorrente, no início da carreira, no período de 1979 / 1980, principalmente. Pelo lado prático, teria que ser um show de choque, pois não haveria estrutura para fazer o show inteiro e tradicional, já que na confusão típica de um festival, não haveria meios para tal.

Seriam duas noites, e na outra, a atração seria a Cida Moreira, sensacional pianista / cantora / compositora e atriz, que eu particularmente admirava por fazer seus shows calcados em Blues; Jazz; MPB da Velha Guarda, e trilhas de cinema.

E naquela época, estava em pleno vapor, filmando bastante, atuando em filmes que hoje em dia eu tenho em minha coleção de DVD's, como "Onda Nova", por exemplo, um filme tão horrivelmente "anos 80", que eu gosto, por birra...
Lembro-me que tivemos um problema com a organização, que decepcionou-nos na hora do almoço, levando-nos a um restaurante bem ruinzinho, e isso enlouqueceu o nosso empresário, Jerome Vonk. O "holandês voador", como o chamávamos, chamou a atenção dos organizadores com veemência, e a bronca surtiu efeito, fazendo com que nós fôssemos reconduzidos a um restaurante melhor.

Jamais esquecer-me-ei dele berrando com os sujeitos, e dizendo-lhes : -"meus músicos não vão comer qualquer coisa... eles precisam de arroz e feijão de qualidade" !! Valeu a bronca, pois a comida no segundo restaurante estava muito boa e farta. O show foi legal, arrancando as risadas costumeiras e surpreendeu-me, pois tinha dúvidas de que funcionaria num ambiente tumultuado de festival, com o público geralmente agressivo, e tendo comportamento de torcidas uniformizadas, torcendo pelos concorrentes. Mesmo na posição confortável de atração maior e não concorrente, sempre sobram respingos em situações assim, devido a tensão desse tipo de evento, com os nervos a flor da pele. Mas meus temores não confirmaram-se, ainda bem e tudo foi agradável nessa noite. Esse show ocorreu no dia 27 de maio de 1984, e a programação da banda era dormir na cidade e voltar para São Paulo no dia seguinte, mas eu teria um show com A Chave do Sol para o dia seguinte, e não podia arriscar chegar em cima da hora, e assim abrir possibilidade para atrasos, portanto, resolvi voltar sozinho. Foi quando alguém da produção do festival comunicou-nos que dois carros com estudantes, partiriam para São Paulo imediatamente, e surgiu a possibilidade de eu aproveitar essa carona. O Pituco Freitas também queria voltar antes, e aceitou a carona, assim com a Cida Moreira. Portanto, encerrado o show, eu; Pituco, e Cida Moreira, voltamos nessa carona.




A próxima temporada no Rio, seria mais curta do que a de abril, e também ficaríamos hospedados em outro lugar. Desta feita, fomos cumprir shows num espaço diferente. Tratava-se de um Circo, charmoso e muito bem localizado, na Gávea, na zona sul do Rio.

Seus organizadores certamente queriam fazer dele, um espaço concorrente do Circo Voador, tarefa difícil, convenhamos, pois o Circo Voador era um sucesso absoluto, e estava sedimentado no espectro cultural do Rio de Janeiro. E nesse aspecto, os esforços que faziam para tornar tal espaço bem sucedido, eram notáveis. A estrutura apresentada, era de qualidade, com som e luz de primeira. A localização, excelente. E a infraestrutura tanto para o artista, quanto público, muito boa. A nossa viagem para o Rio, também foi digna de nota. O Jerome inovou, e ao invés de irmos através de ônibus, como da ocasião anterior, ele comprou passagens ferroviárias.

A histórica linha noturna entre São Paulo e Rio, estava ainda em atividade. Mesmo em vias de acabar (infelizmente !!!), a chamada "Linha de Prata", ainda tentava manter o charme do passado, com o famoso "Carro Pullman", um lounge confortável e cheio de mordomias sobre trilhos. E fora o Carro Restaurante, com sua comida de qualidade e garçons experientes, que pareciam malabaristas por carregarem bandejas cheias, naquele sacolejar típico do trem.

Ficamos divididos em duplas nas cabines, bastante confortáveis e quando reagrupamo-nos para jantar em movimento, encontramo-nos com os membros do Barão Vermelho, que voltavam ao Rio, após uma semana de shows em São Paulo, fazendo o movimento inverso ao nosso. Menos o Cazuza, que segundo ouvimos, havia voltado antes por avião. Chamou a atenção a companhia feminina voluptuosa que acompanhava o baterista do Barão.

Circulando pelos compartimentos com uma mulher espetacular, não havia quem não reparasse na sorte do rapaz...
Minha autobiografia é light. Evito contar episódios constrangedores que possam expor pessoas, mesmo em situações engraçadas. Mas mesmo assim, não resisto em contar que meu amigo Paulo Elias era um dos mais animados nessa viagem.

Empolgando-se com as possibilidades etílicas dos carros restaurante e Pullman, ficou bem alegre. Quando chegou na cabine que dividia comigo, foi arrumar o seu leito, e do jeito que começou a arrumar a coberta, capotou, como se tivesse sido desligado da tomada...


Quando eu acordei, abri a janela da cabine e verifiquei que já era dia, e estávamos atravessando a baixada fluminense, quase chegando ao Rio. Levantei-me e quando olhei no leito que ele ocupava, estava exatamente na mesma posição em que apagara, horas antes, ou seja, além da ressaca, temi que tivesse problemas musculares ao longo do dia, após um castigo desses para a sua coluna cervical, nesse porte...
Desembarcamos na Estação Central do Brasil, por volta das 8:00 h, da manhã, em meio a ebulição que ocorre num horário desses, naquela enorme estação. Atordoados com a multidão, apanhamos táxis, e fomos direto para o apartamento que o Jerome alugara para nós, desta feita em Ipanema.



Ficamos instalados num apartamento de aluguel, típico para turistas. Mas num belo ponto de Ipanema, muito próximo da Praça General Osório, onde aos domingos ocorria a tradicional Feira Hippie, desde os anos sessenta. Equivalia à Feira da Praça da República, aqui de São Paulo, onde os Hippies sobreviviam, vendendo artesanato, roupas e quinquilharias em geral. Mas, assim como a feira paulistana, a carioca também estava decadente e em plena Era oitentista, embebecida de oposição sistemática, era até incompreensível que ainda existisse, anacronicamente.

O apartamento ficava na Rua Visconde do Pirajá, via famosa e estratégica do bairro, paralela à Av. do mar, a Av. Vieira Souto.
Desta feita, o apartamento era bem maior e melhor do que o habitáramos em Copacabana, dois meses antes, e estrategicamente perto da Gávea, onde faríamos nossos shows.

O nome do Circo armado, era "Circo Planetário", e obviamente pelo fato de ficar ao lado do famoso planetário, naquele bairro.
Ficava também perto do Campus da PUC carioca, e da famosa "Pedra da Gávea", que encantou músicos internacionais do Rock setentista, como Rick Wakeman e Steve Hackett. No primeiro show, conseguimos ter a audiência de 100 pessoas. Não era nada espetacular, mas em se tratando de um dia de semana, foi comemorado pelos contratantes, como um êxito.

É bom destacar, que era o fim do outono no Rio, e para os padrões cariocas, as noites estavam "frias", e desacostumadas com temperaturas amenas, as pessoas tendiam a ficar mais caseiras.
O equipamento de som e luz era de qualidade, e o palco mais uma vez fora alugado daquele freak cabeludo e loiro, que alugava para todo mundo no Rio. Mais uma vez usando amplificadores e caixas Fender da velha guarda, a qualidade sonora do baixo; das guitarras; e teclados, foi ótima. O Circo era bem montado, com tudo de primeira e certamente o plano de seus donos era atrair a juventude burguesa e bem nascida da zona sul, tirando um pouco da clientela do Circo Voador, que era sedimentado, "cool", mas bem mais rústico, em todos os aspectos. O primeiro show ocorreu no dia 6 de junho de 1984, mas na verdade, nós chegáramos ao Rio, na manhã da segunda-feira, dia 4 de junho. Portanto, na terça, dia 5, ficamos praticamente com um dia off, para a maioria, pois lembro-me só do Laert, e mais um ou dois voluntários, terem visitado a Rádio Fluminense, em Niterói, para uma entrevista, com o intuito de divulgar o show.

Todos dispersaram e eu resolvi explorar o bairro. Fui ao "Jardim de Allah"; caminhei na Rua Barão da Torre; circulei na Praça General Osório, até que encontrei um pequeno e aconchegante mini Centro Cultural. Entrei para explorá-lo e descobri que no cineclube anexo, haveria uma sessão do filme longa-metragem, "Bete Balanço", recém lançado.

Aventurei-me a assistir, comprei ingresso e com não mais que 20 pessoas na pequena sala, assisti essa película, que retratava bem o ambiente carioca oitentista, e a euforia pelo BR-Rock 80's.
Não era e nunca será a minha predileção, mas assisti resignadamente, tolerando o fato de que estava ali no meio do turbilhão oitentista, e nada poderia aspirar, a não ser torcer para acabar logo o pesadelo pós-punk. A bem da verdade, nesse caso em específico, não era nada insuportável, pois o Barão Vermelho era muito mais perto do meu espectro, do que qualquer outro ícone oitentista. E a micro tour, só começou mesmo no dia 6 de junho de 1984, conforme já citei...


No dia 7 de junho, o show levou a mesma quantidade de público da noite anterior, 100 pessoas. Não lembro-me de nenhuma apreensão por parte dos contratantes, e não era mesmo para preocupar-se, pois no dia seguinte, a melhora foi vertiginosa. Também não recordo-me de nenhuma ocorrência excepcional nesse show em específico. Na minha lembrança, foi um show normal, sem nada a relatar em especial. A despreocupação dos contratantes em relação ao público pagante apenas razoável dos dois primeiros dias, justificou-se quando chegamos ao terceiro dia da mini temporada.
Era o dia 8 de junho de 1984, e 280 pessoas passaram pela catraca do Circo Planetário. Foi um show com quase o triplo do público das duas noites anteriores, justificando toda a confiança depositada no evento, e certamente na banda, também.

Claro, com mais gente, o show naturalmente foi animado, e após esse espetáculo, fomos convidados a fazermos uma mini apresentação num bar de Jazz em Ipanema, que era frequentado por jornalistas. Foi um convite do cartunista Chico Caruso, muito amigo dos "Línguas". Apesar de todo o esforço do Chico para que seus pares entendessem a nossa proposta, ficou um clima meio estranho, pois ali era mais um reduto de amantes do jazz, e a nossa música centrada no humor, não caiu nas graças daquela audiência, de forma arrebatadora. Também, convenhamos, o estado alcoólico da maioria ali presente, já era avantajado, e num ambiente sofisticado daqueles, não eram bebidas baratas exatamente, que gostavam de consumir.

Depois que voltamos, escoltados por caronas, resolvi dar uma volta no calçadão da praia de Ipanema, onde estava acompanhado de uma presença feminina que conhecera no bar dos jornalistas, quando a conversa teve que ser abreviada. Alertada por ela, vi a perigosa aproximação de uma porção grande de garotos menores de idade, e em atitude suspeitíssima, caminhando em nossa direção.
De noite, cabelo comprido no meio das costas e com a pele branca, e sem nenhum resquício de bronzeamento, eu devia ser um chamariz para assaltantes, julgando-me naturalmente, um turista estrangeiro. Nada aconteceu, pois saímos rápido dali, e ficou por isso. Anos depois, quando frequentei o Rio com muita regularidade, por conta de uma namorada que ali arrumei, acostumei-me a ser confundido como argentino, por conta de minha pele clara, e o cabelo longo...




Não deu outra, no show subsequente, tivemos ainda mais público. Foi mais um show com a energia habitual do Língua de Trapo, muitas risadas e com o público saindo satisfeito, no final.
Nessa noite, após o show, estavam todos cansados, e voltamos ao apartamento de Ipanema.

Infelizmente, foi a noite que escolhi para comunicar à banda, a minha decisão de sair, visto que estava insustentável permanecer em duas bandas autorais simultaneamente. Já estava ensaiando para falar com todos, e era muito difícil, mesmo que, subliminarmente, eles soubessem tratar-se de uma decisão que mais cedo ou mais tarde, ocorreria. Desde o início, quando fui convidado a voltar, deixei claro que não deixaria "A Chave do Sol", pois meu lado Rocker era muito forte, e tal banda era um trabalho que ajudei a fundar, além do que, após um longo período de dura labuta, começava a frutificar. O chato, é que eu também era um membro fundador do Língua, gostava do trabalho, e já tinha um histórico de saída, quando de minha primeira passagem.

O Boca do Céu, primeira banda minha e do Laert, em foto de 1977

Portanto, o sentimento em relação ao Língua, era igualmente forte, por ter raízes nessa banda. Mais que isso, havia a agravante de que eu tinha uma ligação fraternal e de fé, com o Laert, pelo fato de nós termos começado nossas respectivas carreiras juntos, na nossa primeira banda de garagem, o "Boca do Céu", fundado em 1976. Sendo assim, era muito difícil eu ter que comunicar a minha decisão, principalmente ao Laert, que certamente ficaria chateado. Tomei coragem, e falei após o show dessa noite, no apartamento de Ipanema. O clima ficou desolador, pois mesmo sabendo dessa possibilidade desde o início de minha volta, muitos da banda achavam que com o tempo e a agenda; exposição na mídia, e prestígio muito maior do Língua, naturalmente, eu mudaria de ideia e continuaria na banda, muito provavelmente deixando "A Chave do Sol", banda que era apenas uma promessa, aos olhos deles. Bem, desde que voltei ao Língua, foi uma época de melindres das duas partes, e eu "pisei em ovos", literalmente, ao ficar em duas bandas, e agora precisava optar, pois ambas pressionavam-me, e não era nada demais essa pretensão de exclusividade, da parte de ambas.

Infelizmente, o clima que ficou pesado com o meu comunicado, piorou, mas por outro evento que não teve nenhuma relação com esse fato. Uma desavença entre dois "Línguas" (não revelarei nomes, para não expor ninguém, e também por ser irrelevante contar o motivo fútil desse evento para essa narrativa, e indo além, algumas horas depois, já haviam feito as pazes...), tornou-se discussão mais acalorada, e quase descambou para as vias de fato, no seu auge. Essa desavença, desviou certamente o impacto criado pelo meu comunicado, mas essa questão ficaria na berlinda doravante, nos meu últimos dias de Língua de Trapo, infelizmente.
Quanto ao show do dia, no Circo Planetário, foram 300 pessoas computadas na plateia, e ocorreu no dia 9 de junho de 1984.




Continua...

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