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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Língua de Trapo - Capítulo 15 - Imprensa e Muita Água em Águas Claras - Por Luiz Domingues

Infelizmente, nessa época eu cometi o desleixo em não anotar as datas e o nome dos programas de rádio, TV, e as principais entrevistas para jornais e revistas em que o Língua de Trapo participou. Portanto, vou comentar alguns somente, e um tanto quanto descompromissado com a cronologia que procuro manter no relato de todos os capítulos. Por exemplo, acredito que foi nessa época, fevereiro de 1984, que concedemos uma longa entrevista ao Jornal da Tarde de São Paulo. 

Lembro-me que o Jornal da Tarde estava a publicar entrevistas com diversas bandas paulistanas, algumas da cena da "Vanguarda Paulistana", outras da cena do "BR Rock 80's". Entre as da Vanguarda, Itamar Assunção & Isca de Polícia; Rumo, e o Língua de Trapo. E sobre o pessoal do Rock, lembro-me claramente dos Titãs. Contudo, apesar da repórter do "JT" ser simpática, suas perguntas apontavam para uma pauta que passava ao largo do trabalho em si. Com o tempo, acostumei-me com esse tipo de abordagem quase desdenhosa por parte da mídia, que encara artistas do underground não pela sua obra, mas pelo exotismo de insistir em trabalhar, mesmo sem o reconhecimento, e as melhores condições de trabalho / sobrevivência. 
A clássica pergunta, sempre feita nesse tipo de abordagem, veio à tona : -"vocês vivem só de música" ? Nunca conformei-me com esse tipo de questionamento, embora tenha sido obrigado a resignar-me com esse fato. Não nesse dia, mas muitos anos depois, ao ser indagado por um outro repórter sobre essa questão, respondi-lhe : -"e você, trabalha só com jornalismo" ?
No caso dessa matéria do JT, infelizmente a obra do Língua de Trapo ficou em segundo plano, e o mote da reportagem foi : "artistas emergentes que sonham em viver de música". Observações tolas sobre ter carro próprio, ou usar transporte público; e morar sozinho, ou na casa dos pais, foram mais importantes pela pauta proposta, que a obra de cada um, infelizmente...


Foi mas foi mais ou menos nessa época, também, que fizemos muitos programas de TV, ao aproveitarmos a pequena brecha na agenda, antes de entrarmos em uma fase sob temporada em teatro, de quarta a domingo. Em um desses programas, lembro-me bem que era um vespertino feminino, muito famoso na época, mas só em São Paulo, por ser da TV Gazeta, que era uma emissora de caráter regional (hoje em dia, atinge diversos estados, mas naquela época, não cobria nem o estado de São Paulo, inteiro). 
Chamava-se "Mulheres em Desfile", e era o típico programa feminino do período da tarde, com entrevistas sobre culinária; moda; saúde, e cosméticos, predominantemente, e intercalados com números musicais, e atores de teatro a divulgar suas peças. As apresentações musicais seguiam o padrão da TV daquela época, com os artistas a dublar seus números musicais, e inevitavelmente fingir cantar e tocar instrumentos, "desplugados", e sem amplificadores, ficticiamente. Para os bateristas, era ainda mais constrangedor, pois ficavam em pé, a fingir tocar com apenas duas peças do Kit : a caixa e um prato. E desde a viagem que fiz para Curitiba, ao reintegrar-me à banda em 1983, já sabia (pelas aparições nas TV's paranaenses que tivemos), que a ordem era "azucrinar" nessas aparições. E não deu outra, aqui ocorreu também... todos trocaram de instrumentos, e eu fui tocar "bateria", a deixar o baixo para o baterista, Naminha.
Mas o mais engraçado veio a seguir, com o término da "performance". Um pouco antes da nossa apresentação, uma das apresentadoras (Yone Borges), falava sobre uma marca de bombons que estava a patrocinar o programa, e sendo bem gentil, veio oferecer-nos, ao final do nosso número musical. O Pituco e o Laert improvisaram rapidamente, e todos entraram na mesma ação, ou seja, avançamos como gafanhotos sobre a cesta de bombons, para assustar a apresentadora, em princípio ! Para tentar sair do constrangimento, ela falou algo como : - "nossa, como eles são irreverentes"... enquanto isso, todos comiam vorazmente, a lambuzar-se como meninos de três anos de idade... ha ha ha ! Ao vivo , para aquela audiência de donas-de-casa, aposentados etc... o que será que pensaram ? Hilário !

Em um outro programa que fizemos nessa mesma época, foi ainda pior. Tratava-se de um programa mega boçal na TV Gazeta, cujo apresentador chamava-se, Reynaldo. Esqueci-me de seu sobrenome infelizmente, e o nome do programa era o nome do sujeito, algo do tipo : Reynaldo "Beltrano" Show, ou coisa que o valha.
Era uma imitação ainda pior do horrendo "Clube dos Artistas", um super Kitsch show noturno de cantores brega, e boçalidades em geral, exibido pela extinta Rede Tupi, no início dos anos setenta.
Com aquela estrutura típica de boite brega, os artistas apresentavam-se a dublar suas músicas, e a circular pelas mesas, onde casais formados por figurantes, fingiam estar em uma noitada romântica de um Night Club. Então, imagine ser a imitação barata de algo terrivelmente brega, que fora o Clube dos Artistas... 
Era um verdadeiro show de horrores, com cantores brega em sua predominância como atrações agendadas, a desfilar seu repertório composto por boleros cafonas e mal gravados, lançados por gravadoras de baixo nível. 
Para ter-se uma ideia, eu não consigo nem lembrar-me quais eram as outras atrações no dia em que o Língua de Trapo apresentou-se, tamanha a irrelevância artística desses elementos. O apresentador era um misto de Ayrton Rodrigues com Dárcio Campos, e de quebra, lembrava também esses cantores de boleros cafonas, ao estilo de Lindomar Castilho; Waldick Soriano; Manolo Otero, e demais similares.

A usar um terno que nem o personagem "Agostinho" da "Grande Família", usaria naquela ficção, o sujeito ainda tinha o seu maneirismo a la Silvio Santos, ao usar o indefectível microfone,  preso na gola da sua camisa social por um suporte estrambótico, mais a parecer-se com um símbolo fálico, digno de explicações intelectualizadas da parte de antropólogos. As pessoas que ficavam na figuração pelas mesas, pareciam ser voluntários não remunerados, pois dava para sentir que apreciavam aquela cafonália toda. As mulheres, exageradamente maquiadas, e vestidas como se estivessem no ambiente de um baile de debutantes, e os homens a acharem-se elegantes no uso de ternos vagabundos, bem mal cortados.

Tal como o "Clube dos Artistas", e o seu irmão, o "Almoço com as Estrelas", as mesas tinham bebidas e porções, a simular o ambiente de boite. E claro, com os refletores acesos, todas as bebidas ficavam mornas, e os salgadinhos azedavam rapidamente...
Isso sem contar a maquiagem das moças, a escorrer por suas faces e o suor dos rapazes, denunciado pelas manchas na manga de seus respectivos paletós, algo inevitável nessas circunstâncias. Mas o melhor estava por vir... 
Como de praxe, o Língua "avacalhava" nesses programas, e esse, com toda essa breguice, tornou-se um prato cheio para a nossa galhofa total. Já estávamos a ter crises de gargalhadas no camarim, só por ver aquela movimentação no ambiente, e as piadas sarcásticas foram imediatas e epidêmicas.
Na hora em que entramos, o clima de deboche foi proposital pois dublaríamos "Concheta", um hino à cafonice, mas o ambiente em que estávamos era tão autenticamente cafona, que a nossa pilhéria em cima desse tema, tornou-se ainda mais hilariante pelo fato das pessoas não perceberem que debochávamos daquela atmosfera, e eles simplesmente apreciarem-nos por não entenderem a ironia. 
Então, o Pituco improvisou, e começou a interagir com as pessoas nas mesas. Em um dado instante, ocorreu uma das cenas mais engraçadas que já vi na TV, quando ele apanhou o pé de uma mulher, e começou a cantar, a usá-lo como um microfone. A mulher ficou constrangida, os técnicos da TV entreolharam-se, mas a cena surreal teve que prosseguir com a música em curso... para agravar, ele levantou-se e num ato tresloucado, suspendeu a perna da mulher para continuar nessa brincadeira, ao levantar-lhe o vestido, e deixá-la sob uma constrangedora posição com a coxa de fora.

Por sorte, o homem que a acompanhava na mesa, não era marido ou namorado de fato, e não teve reação, ao ficar constrangido também, por ser o foco das atenções com a câmera em cima... 
Quando acabou a música, a reação mecânica em aplaudirem e sorrirem foi hilária, por deixar-nos em situação difícil pois estávamos a explodir em gargalhadas e tivemos que conter esse ímpeto, porque a seguir o tal Reynaldo iria fazer uma micro entrevista, muito provavelmente com o próprio Pituco, ao seguir o raciocínio padrão de que o cantor era o líder da banda. E foi o que aconteceu, com uma entrevista com perguntas triviais e todo mundo na plateia a pensar que éramos mais um artista brega que executara um bolero cafona, como qualquer outro. Foi hilário, e minha lembrança foi de que esta aparição, foi uma das mais engraçadas das quais eu participei em programas de TV. E haveria outras engraçadas, ainda com o Língua, conforme relatarei logo mais...


O próximo passo, seria participar de um festival de grande porte. 
Estávamos escalados para tocar no badalado IV Festival de Águas Claras, um enorme evento à época, com nomes famosos da MPB e do Rock.

O Festival de Águas Claras era uma espécie de reencarnação do lendário Festival de Iacanga, realizado em 1975, e que chegou a reunir 15 mil pessoas sob um clima "Woodstockeano" total, e desta feita, só com bandas de Rock em sua programação. No caso de Águas Claras, a verdade é que ele havia sofisticado-se em relação aos improvisos de Iacanga. Já nos anos 1980, as versões I, II e III, tinham mais essa característica de MPB em sua programação, e melhorias na infraestrutura; equipamento, e no caso da edição de 1981, até transmissão televisiva. 
Nesse em que participaríamos, lembro-me que fomos assinar o contrato algum tempo antes, acompanhados de nosso empresário, Jerome Vonk, no escritório montado pela produção, dentro dos estúdios de ensaio da banda, "Placa Luminosa", em um casarão da Av. Rebouças, no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Foi uma temeridade, contudo, a data marcada para o evento, a iniciar-se no sábado de Carnaval, de 1984.
A justificativa do produtor, um rapaz conhecido como "Leivinha" (nada a ver com o jogador de futebol, famoso nos anos setenta), foi que o público iria em peso pelo elenco de renome anunciado, e certamente seria um público avesso ao evento do carnaval. Será ? Estávamos escalados para o sábado, e lembro-me bem que na noite de sexta-feira, tive a oportunidade de visitar o meu amigo, o poeta Julio Revoredo, e em meio a uma caminhada que fizemos pelas ruas do bairro do Brooklin (na zona sul de São Paulo), conversamos sobre o festival, e ele mostrou-se estupefato pelo evento ter sido marcado em pleno carnaval, ao temer assim, por um fracasso de público. De fato, foi um risco muito grande que o produtor, Leivinha, estava a correr. 
E lá fomos nós, dentro de um ônibus da produção que saiu da sede do Placa Luminosa, na manhã desse sábado de carnaval, 3 de março de 1984. O festival realizava-se nessa localidade, dentro de uma fazenda. Ficava próximo a cidade de Bauru, cerca de 300 Km de São Paulo. Ficaríamos hospedados em um satisfatório hotel em Bauru, que é uma excelente cidade, com infraestrutura; bons restaurantes e a produção levou-nos após o almoço, até o local do show, que ficava a uns 30 KM de Bauru, aproximadamente. No nosso dia, estavam escalados também o Gota Suspensa; Raul Seixas; Hermeto Paschoal, e João Gilberto.
O Gota Suspensa era uma banda de Rock bem oitentista, com os elementos muito bem produzidos e equipados. Eram rapazes de origem francesa, naturalmente egressos de famílias abonadas. Era o primeiro show da nova vocalista, uma menina também de origem francófana e esguia, jovem e muito bonita, chamada Virginie. 
O fato, foi que o Gota Suspensa estava a mudar de nome, e chamar-se-ia "Metrô", dali em diante, já com contrato em gravadora grande assegurado, e esquema com empresário, bem alinhavado. De fato, alguns meses depois, o Hit, "Beat acelerado" explodiria nas FM's, e o Metrô estouraria no BR-Rock 80, a aparecer em tudo o que é lugar. O interessante nessa história, foi que eu conhecia, ainda que superficialmente pelas circunstâncias, o baterista da banda, Daniel, pois ele era amigo do fotógrafo, Carlos Muniz Ventura, meu amigo desde o início da minha outra banda, em paralelo, a referir-me à Chave do Sol.

Quando viu-me nos bastidores, o Daniel veio eufórico cumprimentar-me. Foi extremamente gentil e humilde, sem afetações, algo raro para quem estava a entrar em um esquema de carreira mainstream, e principalmente por estar em uma banda de dândis oitentistas. Por outro lado, talvez muitas pessoas surpreendam-se, mas o Gota Suspensa já existia desde 1979, aproximadamente e pasmem, era uma banda de Rock Progressivo em sua origem ! Os rapazes cultuavam Yes; ELP; Genesis; King Crimson, e até o Rush... Com o desenvolver dos anos oitenta, propuseram-se a adequar-se aos ventos modernos e completamente antagônicos, e já tinham mudado radicalmente o som e o visual, ao modernizar-se e assim seguir os passos de bandas internacionais tais como o Talking Heads; Blondie; The Carrs; B52's etc. E pretendiam radicalizar ainda mais, ao partir para o POP oitentista e robótico do Eurythmics; misturado ao pop insosso de Culture Club; Depeche Mode; A Flock of Seagulls; Tears for Fears; Style Council, e tantos outros exemplos dessa vertente de dândis do pós-New Wave. 
Falou-me em tom de lamento sobre a mudança da sonoridade e visual, mas eu o incentivei a resignar-se, e encarar o lado bom desse sacrifício, pois entrariam em um esquema de trabalho muito forte, com exposição na mídia; sucesso; agenda cheia, e consequentemente, muito dinheiro. Eu encontraria o Daniel ainda em 1984, nos bastidores de um show no Circo Voador, no Rio de Janeiro, e no capítulo da Chave do Sol, conto esse história, que também é muito boa. Assisti o show do Gota, na coxia improvisada do palco. Realmente o repertório não agradava-me nem um pouco, com aquela estética oitentista. Para piorar, os rapazes tinham coreografias ensaiadas, e em vários momentos pareciam "replicantes" do Blade Runner, o grande e óbvio sucesso da época...
Certamente espelhavam-se nas performances do Kraftwerk e artistas que os seguiram. Eu entendia a angústia do Daniel com aquela estética toda, sendo que internamente gostava era do Yes... Mas por outro lado, estava feliz, pois era um rapaz que eu conhecia, a entrar no esquema forte do Show Business no mainstream, o que convenhamos, fora uma oportunidade rara. A seguir, subiria ao palco, o Língua de Trapo...

Chegou enfim a nossa vez. A nossa participação não tinha como ser a normal realizada em teatros, e por ser um show de uma hora de duração, também não poderia ser um show de choque, simplesmente. Então, mantivemos a característica normal de choque, mas com um repertório mais elástico. E havia o velho dilema do público não habituado à dinâmica mais intimista da banda, não entender a proposta de sátira e humor do trabalho. 
Em festivais desse porte, com público muito numeroso, a tendência é de haver frisson, só quando o artista é muito conhecido, e o estimula.
Por outro lado, eu não sentia nenhuma preocupação de meus companheiros com tal possibilidade. Os demais estavam seguros e dessa forma, também relevei essa preocupação. Quando entramos no palco, havia um público com aproximadamente dez mil pessoas, segundo estimativas dos organizadores. Era bastante gente, claro, mas a expectativa era a de reunir cinquenta mil, portanto, dava para ver no semblante dos produtores, um misto de aflição e frustração. 
Foi óbvio que estavam a amargurar um prejuízo mastodôntico, mas não foi por falta de aviso de muita gente, que carnaval não combina com festivais, por mais que exista pessoas que detestem o carnaval, rol do qual incluo-me.
Então, o palco estava montado de frente para uma colina pouco acentuada, onde naturalmente as pessoas acomodavam-se como se fosse um anfiteatro. Começamos a tocar e o som estava bom no palco, no tocante aos monitores. Pituco e Laert faziam suas performances normais como se fosse show regular em teatro, e a banda tocava com tranquilidade, a fazer performances também. O público reagia bem. Claro que as 10 mil pessoas não estavam a vibrar loucamente como em show de Rock, mas até onde a minha vista alcançou, eu notei pessoas a dançar e rir das sátiras, aliás, a reação normal esperada em qualquer show do Língua de Trapo.
O show avançou, e deu para notar que o céu estava a ficar muito escuro. Um típico vento de chuva começou, e por ser uma fazenda no interior, o odor ficara ainda mais característico.
Quando estávamos a tocar a canção, "Xingu Disco", a última música do Set List, o vento intensificou-se, e deu para sentir a agitação dos técnicos, ao correr para cobrir com lonas; o P.A., e os equipamentos de palco.
Foi quando subitamente, percebi que o piano elétrico do João Lucas parou. Mas eu estava empolgado, a tocar bem na ponta do palco e a fazer poses, ao sentir-me um "Rock Star", e nem preocupei-me em olhar o que estava a acontecer, pois imaginei ter sido uma pane rápida que um roadie solucionaria prontamente, coisa do tipo: um cabo a falhar, ou problemas no Direct Box. Continuei a tocar, e logo a seguir, sumiu a guitarra do Lizoel, no monitor... 
Cáspite, naquela fração de segundos percebi enfim que algo mais grave estava a acontecer. Quando olhei para trás, vejo o Naminha a levantar-se da bateria, e nesse instante, o Pituco e o Laert gritavam comigo, para sair rápido do palco ! A ventania estava a ficar muito forte, e um spot de luz caiu muito perto de mim, ao espatifar-se no palco !
Por alguns centímetros não fui atingido e se acertasse, poderia ter ferido-me gravemente, ou mesmo produzido o óbito, pois foi uma peça pesada, e a depender de onde atingisse-me na cabeça, eu simplesmente não estaria por escrever esta história. Corremos para o camarim, que era na verdade um espaço improvisado como picadeiro de circo, armado com uma gigantesca lona. O show estava no fim, e não ficamos frustrados, mas o final foi bem chato, claro. O publico não tinha onde abrigar-se e naquele campo aberto, ficou suportando a chuva da maneira que pode.
Por um lado, o clima de "Woodstock" estava sendo carimbado pelo batismo de chuva e barro, a honrar sua tradição, mas vou contar-lhe, amigo leitor : a lama que formou-se decorrente dessa tempestade, não tinha nada de glamorosa, e o público ficou à mercê de uma sujeira incrível, fora a umidade, desconforto, e uma série de outros incômodos. E como a estrada vicinal que levar-nos-ia para fora da fazenda, até o hotel em Bauru, também ficou intransitável, fomos aconselhados a esperar na tenda dos artistas, ou dentro do ônibus da produção. Foram longas horas de espera e ... calma que vem mais histórias por aí, dessa aventura em Águas Claras !
 


Enquanto o temporal caia com todo o seu ímpeto, a lona da tenda dos artistas ameaçou voar algumas vezes, literalmente. Goteiras que eram verdadeiras cachoeiras formaram-se em vários pontos, a tornar o espaço seco, mais exíguo. E as conversas que ouvíamos davam conta que cancelariam os shows posteriores de Raul Seixas; Hermeto Paschoal e João Gilberto. Produtores e técnicos corriam para lá e para cá, sob um clima de nervosismo, e ouvíamos também produtores dos artistas que ainda iriam tocar, bem nervosos e os boatos corriam. Eram inevitáveis os questionamentos sobre os cachets, ou melhor, a perspectiva nefasta de não serem pagos com todo aquele imbróglio Nesse ínterim, a chuva diminuiu o seu ímpeto violento, e a boataria dava conta de que os shows recomeçariam. Foi quando a movimentação de técnicos alvoroçou-se, para tentar diminuir o tempo perdido. A tempestade no entanto, já havia provocado um atraso de duas horas entre o nosso show, e o início do show do Raul Seixas.
Então, um produtor do Raul Seixas abordou-nos em nossa mesa, e perguntou se um de nossos guitarristas poderia fazer a gentileza de emprestar uma guitarra para ele, Raul. O fato é que ele tinha chegado ao local do show, sem guitarra, e dessa forma, mesmo não sendo imprescindível para o show, visto existir um guitarrista na banda, ele insistia que queria iniciar o show a tocar junto com a banda. Bem, o Sergio Gama, um de nossos guitarristas, animou-se de pronto. Seria uma honra ter a sua guitarra na mão do Raul, quiçá fotografado e filmado... 
O outro guitarrista, Lizoel Costa, aconselhou o Sergio a não fazer isso, pois poderia arrepender-se. Não lembro-me exatamente quem mais, porém outras pessoas também aconselharam-no a não emprestar. Era uma guitarra Giannini, tudo bem, mas mesmo não sendo uma Gibson, era temerário o empréstimo.
Então, o Sergio nem quis saber e emprestou sua " SG" vermelha. O produtor levou-a ao Raul, e nós ficamos na coxia a observar a movimentação para o início do show dele. Mesmo com o palco cheio de vestígios da lamaceira e a faltar vários spots de luz que foram perdidos, o show estava pronto para começar, e o público delirava com a perspectiva do Raul aparecer, ao esquecer completamente que a lama deixara-os em petição de miséria. 
Então, o Raul entrou no palco e ao dirigir-se a cambalear ao microfone central com a Giannini SG, do Sergio Gama, pendurada no ombro, mal começou a tocar com a banda, e caiu de frente, a espatifar-se com a guitarra no chão. Rapidamente, roadies entraram e o retiraram, para levá-lo à Bauru, em um Pronto-Socorro. O produtor que havia pedido a guitarra emprestada veio devolvê-la, e pediu mil desculpas, entregou-a com um tremendo arranhão produzido pelo impacto no chão. Ficou aquele clima de "eu avisei", mas o Sergio, apesar de chateado, resignou-se com o prejuízo. 

Pois é... após duas horas de atraso, o Raul não cantou nem uma música, e estava encerrada a sua participação. Por sorte, ao anunciarem que ele fora levado ao hospital, não houve tumulto. O público estava resignado, mesmo porque, todo mundo viu a queda assustadora, e ficou preocupado com ele. Mais um pequeno atraso e muito bate-boca ocorreu nos bastidores por conta de cachet, Hermeto Paschoal enfim entrou, e alegrou a noite com seu Free-Jazz, cheio de experimentalismos e brasilidades.
A seguir, João Gilberto apaziguou todo o nervosismo anterior, com sua Bossa-Nova intimista, e quase cantada aos sussurros.
O céu abriu, e embora o público estivesse encharcado e enlameado, todo mundo demonstrou gostar, a minimizar as agruras de um sábado tumultuado. 

E ainda tem mais um pouco de histórias sobre o Língua de Trapo em Águas Claras '1984...
 
Como já disse, o show do Hermeto culminou em acontecer, e a julgar pelo bate-boca entre seu empresário, e os organizadores do festival, deve ter aparecido um dinheiro vivo, pois um reles cheque para compensar na quarta-feira de cinzas, não acalmaria o empresário furioso. E claro, entre a saída dramática de Raul Seixas, e a entrada de Hermeto, aconteceu mais um atraso razoável. O sábado foi cansativo para todos, principalmente para o público que enlameou-se, viu shows truncados e aguentou longa e entediante espera. Devido a chuva, o acesso de terra que dava acesso à estrada vicinal, estava intransitável. Dessa forma, tivemos que esperar horas, e só quando já estava por amanhecer, pudemos ir ao hotel em Bauru. Lembro-me de uma cena bizarra dentro do ônibus, na volta... Jards Macalé (ele tocaria no domingo, mas foi assistir os shows do sábado), ao ver-me exausto, emitiu uma pilhéria, ao dizer-me  : -"e aí, bicho ? Está de volta ao mundo material, do telefone, carro, avião" ? 
Foi o sinal de que eu parecia um zumbi... 
Para encerrar esta história, no hotel em Bauru, um produtor anunciou que um ônibus da produção iria para São Paulo naquele instante, para buscar outros artistas, e levar equipamentos avariados pela tempestade, para o conserto em alguma oficina da capital. 
Todos preferiram dormir, e voltar no outro ônibus depois do almoço, o que seria o correto, mas eu queria estar em São Paulo o mais rápido possível para tentar fazer um ensaio com a Chave do Sol, e assim, voltei sozinho, a sentir-me dentro de um navio cargueiro, com tantos equipamentos amontoados. E sobre os maus presságios financeiros do festival, claro que o empresário do Hermeto Paschoal estava certo... 
O Jerome, nosso empresário, voltou com um cheque para ser depositado na quarta de cinzas, mas... esqueceram de dizer-nos em que ano o dinheiro seria compensado, pois até hoje não vimos a cor do dinheiro. Um tremendo prejuízo levamos de Águas Claras...
Continua...    

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